Final dos Tempos

'Justamente agora que o Brasil subiu para a sexta posição entre os países de maior PIB, o mundo vai acabar em 2012. Ainda bem que será depois do Carnaval. Segundo cientistas, místicos e religiosos do mundo inteiro que passam a vida lendo as entrelinhas dos profetas, este mundo velho sem porteira está no fim. Termina o mundo construído, mas o planeta Terra continua.'
Ótimo texto de Zarcillo Barbosa, continue lendo...
Crédito, jcnet
Texto de  Zarcillo Barbosa, colaborador do jcnet

'Vamos ingressar na verdadeira Era de Aquários, muito mais fraterna, como se Deus quisesse começar tudo outra vez. Segundo a cosmologia maia, povo pré-colombiano, o planeta Terra possui cinco grandes ciclos, cada um com 5.125 anos. Para eles, quatro já passaram. O juízo final refere-se ao último dia do quinto ciclo, que cai no 21 de dezembro de 2012. A profecia maia baseia-se em um raro fenômeno cósmico previsto pelos andinos há 2 000 anos. Em dezembro o sol vai se alinhar com o centro da nossa galáxia, coisa que só acontece a cada 26 000 anos. Algumas teorias com base científica falam em “precessão”, mudança no movimento de rotação de um corpo celeste, provocado pela influência exercida sobre ele por um ou mais astros. Como o sol do solstício, em dezembro, vai se alinhar com os planetas da Via Láctea, os maiores vão exercer força gravitacional somada, sobre os menores. A Terra, pequenininha, vai ser deslocada no seu eixo pela atração de Netuno, Saturno, Plutão e do próprio Sol. É como aquela figura do peixe maior de boca aberta, pronto para engolir o menor que, por sua vez também vai abocanhar outro peixe ainda menor, e assim sucessivamente. As consequências seriam catastróficas para a humanidade. Violentos terremotos, tsunamis colossais, atividades vulcânicas intensas. Os distúrbios magnéticos e essa mudança de eixo vão afetar a polaridade do nosso planeta. As alterações físicas supostas mudariam toda a geografia terrestre, com deslocamento dos continentes em milhares de quilômetros no rumo Norte. Imagine o Brasil no lugar dos Estados Unidos. Alcançaríamos ainda em 2012 o primeiro lugar no ranking das maiores economias do mundo no governo Dilma, para inveja do Lula. Enfim, o nosso futuro terá finalmente chegado, embora, no Brasil até o passado seja incerto. Se esse tal fenômeno da “precessão” não der certo, existem outras hipóteses como a dos grandes cataclismos que seriam gerados devido a passagem de um asteróide ou meteoro gigante perto da Terra. Quem sabe a “abominável desolação” de Jesus; a “grande estrela ardente com um facho chamado Absinto”, do Apocalipse de João, ou, porque não, o “planeta chupão” citado pelo nosso saudoso, embora sempre presente, Chico Xavier. Pena que o mundo se acabe antes da Copa do Mundo. Como é que os políticos vão receber as propinas dos construtores dos estádios de futebol? O Annus Horribilis se transformaria no Annus Mirabilis, com a nova era prometida. O meu temor é chegar dezembro e o jornal ter que anunciar em manchete: “O fim do mundo foi adiado por falta de estrutura”. Falhou no ano 1000, quando a população europeia se desfez de tudo e partiu para a gandaia desenfreada. “Do ano 2 000 não passarás”. Depois refizeram os cálculos para 2001 com a presença do tal de “bug do milênio”. Nada. Nem um espirro divino. Em 2006 inventaram que era o número da besta, 06/06/06. Em 2009 o número da besta invertido prognosticava o adeus derradeiro: 09/09/09. Em 1938, Assis Valente compôs um samba para Carmen Miranda que dizia assim: “Ameaçaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ Por causa disso minha gente lá de casa começou a rezar/ Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada/ Por causa disso lá no morro não se fez batucada./ Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conheci/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal mundo não se acabou”.' 

'O poeta T.S. Elliot vaticinava que o mundo terminaria não com um estrondo, mas com um gemido. Só um ai. Não haverá tempo para pânico. Quando a humanidade perceber já estará diante do Julgador Final. Terá terminado o Armagedon, ou a batalha entre Deus e Satã, com a separação do joio do trigo. Os poetas que tratem de compor os versos derradeiros, como fez Manuel Bandeira: “Assim eu quereria o meu último poema/ Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais/ Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas/ Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume/ A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos/ A paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. Feliz Ano Novo, em um mundo novo - pelo menos dentro de cada um de nós.' 


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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